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  ESCORRER

Escorrer.

#189

4/26/2017

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CRETA 
 
impresso em naus a mão e o selo, labirintos
a tinta, gramatura de vasos e carne o papel
para o registro de uma via irretocável
 
queimo pálpebras nos dedos, confuso
este sinal enrodilhado
 
calejo com verdes fôlegos o calcário
do segredo
 
e nem sempre, ao fim
me safo
Roberta Ferraz.
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#188

4/25/2017

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ESTRADA
 
Luanda Dondo vão,
cento e tal quilômetros
mangas e cajus
marcos brancos
meninos nus
​ 
Branco algodão
crescendo
corpos negros
na cacimba
 
O Lucala corre
confiante
indiferente à ponte que ignora
 
Verdes matas
Sangram vermelhas acácias
imbondeiros festejam
o minuto da flor anual
 
Na estrada
o rebanho alinha
pelo verde
verde capim
 
Adivinhados
caqui lacraus
de capacete giz
 
Meninos
se embalam
em mães velhas
de varizes:
 
Rios azuis
da longa estrada
 
E é fevereiro
sardões ao sol
Cassoalala
 
Eia Mucoso
tão vazio outrora
tão cheio agora
Adivinhados
permanecem
lacraus caqui
capacetes giz
 
Não param as colheitas
 
 
Que razão seriam
fevereiro
acácias sangrando vermelho
verdes sisais
cantando o parto
da única flor?
 
Não param as colheitas!​
José Luandino Vieira.
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#187

4/24/2017

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Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já. não vejo televisão
há. cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.
José Miguel Silva.
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#186

4/11/2017

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CABELOS QUE NEGROS

Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.​
Oliveira Silveira.
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#185

4/10/2017

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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar.
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#184

4/5/2017

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 Instinto de negridade

“Não há dúvida que uma literatura, sobretudo literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região; mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é o certo sentimento íntimo, que o torne homem de seu tempo e do seu país, ainda quando trate deassuntos remotos, no tempo e no espaço.”
                                                                                                                                                                                                                        Machado de Assis

Não há dúvida que a revolta de um povo massacrado
Sobretudo um povo sacrificado na sala de espetáculos da casa grande
Entre móveis de jacarandá, castiçais de prata e cortinas de seda
Deve alimentar-se primeiramente das estocadas que ainda 
     lhe ferem a alma
Do desespero de espaço em que lhe emparedaram a alma

Não há dúvida que o meu verso é também o meu quilombo ardente
Atento às doutrinas absolutas que me querem escalpelar o pixaim
Queimar na fogueira do esquecimento meus sentimentos íntimos
Alisar minha língua no ferro do feitor que mantém acesa a fogueira
Conformar meu silêncio na pasta quente para esticar meus gestos

O que devo exigir de mim mesmo e do meu estilo antes de tudo
É certo sentimento íntimo que me faz ciente do conflito que trago 
       na cor da pele
O que me torna um antipatriota convicto em conflito com 
       o teu país e a tua cor
É ser um aliciador dos corações curtidos no limão e no alho 
       que lhes tempera
Porque meu verso é levante ainda quando distante no tempo 
       no espaço na composição do sangue.
Nelson Maca.
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#183

4/4/2017

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estilos de época

Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Cacaso.
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#182

4/3/2017

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Toda palavra 

Procuro uma palavra que me salve
Pode ser uma palavra verbo
Uma palavra vespa, uma palavra casta.
Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
Ou palavra muda,
molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
Penso em quanta fadiga me dava
o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
Hoje imploro uma fala escrita,
não pode ser cantada.
Preciso de uma palavra letra
grifada grafia no papel.
Uma palavra como um porto
um mar um prado
um campo minado um contorno
carrossel cavalo pente quebrado véu
 mariscos muralhas manivelas navalhas.
Eu preciso do escarcéu soletrado
Preciso daquilo que havia negado
E mesmo tendo medo de algumas palavras
preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
que é uma palavra triste.
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.  
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda.
Viviane Mosé.
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