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  ESCORRER

Escorrer.

#225

7/31/2017

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ANTIMUNDO

Para o João Diogo

​plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

​um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi
Miguel-Manso.
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#224

7/28/2017

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EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa 
a toda a velocidade: gota 
sombria. Descobri as poeiras que batiam 
como peixes no sangue. 
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa - 
como se descobre uma letra 
de outra cor no meio das folhas, 
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota 
sombria num girassol - 
essa letra, essa cidade em silêncio, 
batendo como sangue. 

Era a minha cidade ao norte do mapa, 
numa velocidade chamada 
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam 
como letras no alto das folhas, 
poeiras de outra cor: girassol que se descobre 
como uma gota no mundo. 
Descobri essa cidade, aplainando tábuas 
lentas como rosas vigiadas 
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio 
como uma gota 
de seiva lenta numa tábua aplainada. 

Descobri que tinha asas como uma pêra 
que desce. E a essa velocidade 
voava para mim aquela cidade do mapa. 
Eu batia como os peixes batendo 
dentro do sangue - peixes 
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia, 
aplainando na tábua 
todo o meu silêncio. E a seiva 
sombria vinha escorrendo do mapa 
desse girassol, no mapa 
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo 
como as letras nas folhas 
de outra cor. 

Cidade que aperto, batendo as asas - ela - 
no ar do mapa. E que aperto 
contra quanto, estremecendo em mim com 
                                        [ folhas, 
escrevo no mundo. 
Que aperto com o amor sombrio contra 
mim: peixes de grande velocidade, 
letra monumental descoberta entre poeiras. 
E que eu amo lentamente até ao fim 
da tábua por onde escorre 
em silêncio aplainado noutra cor: 
como uma pêra voando, 
um girassol do mundo.
Herberto Helder.
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#223

7/14/2017

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RACCONTO

Chegada na festa de olhos vendados
e ninguém se apresenta. Mofamos
no canto calados mas o nariz desperta
(está no ar o perfume do perigo)
muita batida conversa de atropelo
joelho cotovelo
– esse ângulo, amor, é impossível –
poucos reparam na moça porque passa
uma salada, bandeja de palavras raras
com citação clássica em forma de cereja.
Circula a taça, o narguilé, risada fraca
afrouxa o cinto, o colóquio
vira circuito de peitinhos rijos
mas quando se repara já é tarde:
o penetra mordisca o damasco, cospe o caroço
identifica-se. Sou um artista, vou comê-la
e Afrodite quase distraída: por que não?
Eu também sou filha de Zeus.
Eudoro Augusto.
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#222

7/13/2017

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REVOLUÇÃO

Antes da revolução eu era professor
Com ela veio a demissão da Universidade
Passei a cobrar posições, de mim e dos outros
(meus pais eram marxistas)
Melhorei nisso - 
hoje já não me maltrato
nem a ninguém
Francisco Alvim.
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#221

7/11/2017

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Suma Teológica

Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram 
navios no alto mar, quando nasci. 

Nada mudou. Continuaram as guerras; 
continuou a subir o preço do pão; 
continuaram os poetas, uma vez por outra, 
a perguntar por ti. 

É certo que, então, imensa gente 
envelheceu instantânea e misteriosamente. 

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda 
se foi por minha causa, 
se por causa de outros que terão nascido 
ao mesmo tempo que eu. 
Jorge de Sena.
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#220

7/10/2017

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Espiral do tempo

Apenas um papel de seda nos separa:
o desenho da sua boca
minha espinha estúpida.
Na verdade são mais de 700 quilômetros
mas o caderno é meu.
Carla Andrade.
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#219

7/6/2017

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Ismália

XXXIII

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Alphonsus de Guimaraens.
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#218

7/4/2017

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OBÁ KOSSÔ 

Xangô, Obá Kossô, cobre
a cabeça com sua coroa de cobre

e chega, portando a pedra do raio:
tudo brilhando nele, tudo

mudado em segredo, todas as
loas para ele — elefante

que anda com porte de rei,
cavalo que manda e desmanda

como um rei, pantera preta,
senhor rei de Agasu —, aganju

que bloqueia o rio e queima
a chuva com o raio.
Ricardo Aleixo.
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#217

7/3/2017

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sábado de aleluia

Escuta, Judas.
Antes que você parta pro teu baile.
A morte nos absorve inteiramente.
Tudo é aconchego árido.
Cheiro eterno de Proderm.
Mesa posta, e as garras da vontade.
A gana de procurar um por um
e pronunciar o escândalo.
Falar sem ser ouvida.
Desfraldar pendengas: te desejo.
Indiferença fanática ao ainda não.
Ana Cristina César.
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